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Overdosem-se!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Favelário nacional


Um episódio de sala de aula me impulsionou a postar o texto a seguir – de Drummond. Mas antes, vou contar (sob o meu ponto de vista) o que ocorreu. Se por ventura, a protagonista perceber q falo dela, por favor não se ofenda, não é esse meu objetivo. Só pretendo mostrar o motivo de minha opinião divergir da sua, ainda assim, respeito suas razões.

Era aula de antropologia, uma matéria que busca fazer com que entendamos cada sociedade de acordo com a sua própria lógica, além de tentar introduzir- nos num mundo com menos estereótipos, pois os mesmos são resultado de generalizações – comumente distorcidas.

Bom, ao estilo “eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada”, a garota deu início a um de seus típicos comentários de rápida perda de sequência do que estava sendo dito até então. (A impressão que eu tenho é de uma corrente cujos segmentos desmembraram-se).

Segundo a menina, ela não seria capaz de realizar uma interpretação crítica da própria cultura porque ela sempre iria distorcer a realidade em favor da própria cultura, tipo, negando a existência de aspectos negativos. Ela citou uns exemplos nada a ver de interior e de favela (“A gente meio que sabe como é, eu leio as notícias e sei que lá só tem gente pobre, burra e blábláblábláblá”). Tudo isso entoado num tom que pretendia provocar risos.

A meu ver, não fez um menor sentido o que ela disse. Primeiro: como cultura é tudo o que as pessoas aprendem em sociedade, não creio que a simples menção de interior ou de favela diz respeito necessariamente à cultura local. Segundo: como uniformizar a imensidão do território brasileiro? Óbvio que há bastantes aspectos que não conhecemos muito bem (onde foi para o “só sei que nada sei” de Sócrates?). Terceiro: características consideradas positivas para uma sociedade podem representar uma conotação pejorativa em outras. Por exemplo, os brasileiros se acham simpáticos, mas outros grupos podem achar-nos invasivos. Logo, mesmo que ela distorcesse sua sociedade, isso não traria –obrigatoriamente- uma boa imagem.

A garota revelou uma face preconceituosa, no sentido real da palavra, pois ela atribuiu valor, julgou antes mesmo de conhecer, apenas com a inconsciente, automática associação – incansavelmente reproduzida ao ser redor. Apenas ela não analisa criticamente os fatos, é o tipo de povo-papagaio que grava e dissemina as opiniões que ouviu num sei onde de num sei quem- da sua classe, claro.

Mas não a culpo por viver enclausurada numa bolha, protegida pela placenta de pais que acham que ir à esquina é arriscado demais, afinal a pobrezinha pode encontrar algum lobo mau negro, pobre, marginal, faminto que irá levá-la para as trevas da favela.



Certo, não ficou tão claro quanto eu pretendia, mesmo porque foi difícil interpretar aonde ela queria chegar. Em contrapartida, abaixo se encontra um texto muito íntimo da real idéia que penso ser a idéia que a gente sente sobre a desconhecida, mas tão especulada favela.



Favelário nacional


Quem sou eu para te cantar, favela,


Que cantas em mim e para ninguém


a noite inteira de sexta-feira


e a noite inteira de sábado


E nos desconheces,


como igualmente não te conhecemos?


Sei apenas do teu mau cheiro:


Baixou em mim na viração,


direto, rápido, telegrama nasal


anunciando morte... melhor, tua vida....




Decoro teus nomes. Eles


jorraram na enxurrada entre detritos


da grande chuva de janeiro de 1966


em noites e dias e pesadelos consecutivos.




Tua dignidade é teu isolamento por cima da gente.


Não sei subir teus caminhos de rato, de cobra e baseado,


Tuas perambeiras, templos de Mamalapunam


Em suspensão carioca.




Aqui só vive gente,


bicho nenhum tem essa coragem....




Tenho medo. Medo de ti, sem te conhecer,


Medo só de te sentir, encravada


Favela, erisipela, mal-do-monte


Na coxa flava do Rio de Janeiro.


Medo: não de tua lâmina nem de teu revólver


nem de tua manha nem de teu olhar.




Medo de que sintas como sou culpado



e culpados somos



de pouca ou nenhuma irmandade.


Custa ser irmão,


custa abandonar nossos privilégios




e traçar a plantada justa igualdade.






Somos desiguais


e queremos ser


sempre desiguais.




E queremos ser


bonzinhos benévolos


comedidamente


sociologicamente


mui bem comportados.




Mas, favela, ciao,


que este nosso papo


está ficando tão desagradável.




Vês que perdi o tom e a empáfia do começo?...











3 comentários:

  1. Melhor post que eu já li!!!

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  2. Coitada da menina da sua sala.q

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  3. Revele-se!haha
    E nada a ver, eu deixei claro q respeito a opinião dela, sendo q não concordo.
    Os fragmentos em que eu moldo a personalidade dela ajudam a reforçar meu argumento. Somente. E não a culpo por isso...talvez eu tb tenha lapsos, mas esforço em me controlar.

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