
O poema a seguir pertence ao Tropicalismo, movimento do final da década de 1960 inspirado na idéia da necessidade de assumirmos nossa cultura tropical, porém de modo crítico. Nesse sentido, expressõews como culpa, pecado e aflição referem-se ao fato de o Brasil ser visto como "o fim do mundo", "o terceiro mundo"...
Para criar um panorama do país, o texto reinterpreta referências culturais, históricas e literárias. O primeiro verso é uma forte referência religiosa, o ato de contrição dos católicos. "Ao canto da juriti" é uma referência ao livro Iracema, de José de Alencar."Minha terra tem palmeiras onde sopra o vento forte" parodia a "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias. O texto tb remete a cançõe spopulares, como "yes, nós temos bananas" e o refrão "ô lelê, ô lalá". Todo o texto está carregado de ironia.
Marginália II
Eu, brasileiro, confesso minha culpa, meu pecado,
Meu sonho desesperado, meu bem guardado segredo,
Minha aflição.
Eu, brasileiro, confesso minha culpa, meu degredo,
Pão seco de cada dia, tropical melancolia,
Negra solidão.
Aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo,
Aqui é o fim do mundo...
Aqui o terceiro mundo pede a bênção e vai dormir
Entre cascatas, palmeiras, araçãs e bananeiras,
Ao cano do juriti
Aqui, meu banho de glória, aqui, meu laço e cadeia.
Conheço bem minha história, começa na lua cheia,
Termina antes do fim.
Aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo,
Aqui é o fim do mundo...
Aqui é o fim do mundo...
Minha terra tem palmeiras onde sopra o vento forte
Da fome, do medo e, muito principalmente, da morte.
Ô lelê, ô lalá...
Aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo,
Aqui é o fim do mundo...
Aqui é o fim do mundo...
(Gilberto Gil e Torquato Neto)
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